Decisão do STF permite medidas mais rígidas contra devedores, mas aplicação depende de processo judicial e análise individual
A preocupação com o nome sujo deixou de ser apenas um problema de crédito. Uma decisão do Supremo Tribunal Federal abriu caminho para que juízes adotem medidas mais severas contra devedores que não demonstram intenção de quitar dívidas, incluindo a suspensão da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e do passaporte.
A medida não é automática, tampouco se aplica a pequenas pendências do cotidiano. Ela funciona como instrumento de pressão contra quem alega não ter recursos, mas mantém padrão de vida incompatível com a inadimplência, exibindo bens ou viagens enquanto ignora decisões judiciais.
Apesar do impacto da notícia, existem limites claros. O direito de ir e vir não pode ser violado de maneira arbitrária. Cada caso é analisado individualmente, buscando equilíbrio entre o direito de quem precisa receber e a real condição financeira de quem deve.
Quando a Justiça pode suspender documentos
A suspensão da CNH ou do passaporte só ocorre dentro de um processo judicial já em fase de execução. Isso significa que o credor acionou a Justiça, venceu a ação e, após tentativas frustradas de penhora de dinheiro ou bens, solicitou ao juiz uma medida coercitiva.
O magistrado só autoriza a restrição se houver indícios de ocultação de patrimônio ou má-fé. Se o devedor comprovar renda baixa e ausência de bens, a aplicação da medida tende a ser afastada, pois não pode servir como punição gratuita.
Antes da suspensão, o devedor é notificado e tem direito à defesa ou à apresentação de proposta de acordo. O objetivo é forçar diálogo e estimular a solução da dívida que se prolonga no tempo.
Profissionais que dependem da CNH estão protegidos
Há exceções importantes. Quem utiliza o veículo como ferramenta de trabalho — motoristas de aplicativo, caminhoneiros, entregadores e taxistas — não pode ter a CNH suspensa por dívidas civis, pois isso comprometeria o sustento próprio e da família.
O direito ao trabalho prevalece sobre o direito de crédito. Se comprovada a essencialidade da habilitação para exercício profissional, o juiz deve revogar a medida.
O mesmo raciocínio vale para o passaporte quando a viagem estiver vinculada a trabalho ou tratamento de saúde urgente no exterior. A intenção da regra é atingir o devedor que age de má-fé, não aquele que enfrenta dificuldades reais.
Como reverter a suspensão
A forma mais eficaz de recuperar os documentos é resolver a pendência judicial. Isso pode ocorrer por meio do pagamento integral ou, mais comumente, por acordo de parcelamento aceito pelo credor.
Após homologação do acordo e quitação da primeira parcela, o juiz determina o desbloqueio imediato nos sistemas do Detran ou da Polícia Federal.
O acompanhamento por advogado ou pela defensoria pública é essencial. Há situações em que a medida pode ser considerada desproporcional, cabendo à defesa demonstrar que a restrição não contribui para a satisfação do crédito.
Como evitar que a dívida chegue à Justiça
Ignorar notificações é o primeiro passo para o problema crescer. Quando a dívida entra na fase judicial, os custos aumentam com honorários e taxas, tornando a solução mais onerosa.
A renegociação antes da execução é o caminho mais prudente. Mutirões de conciliação e canais oficiais de negociação costumam oferecer condições mais vantajosas.
Manter endereço atualizado também é fundamental. Processos podem seguir à revelia quando o devedor não é localizado, facilitando a aplicação de medidas severas sem que ele tome conhecimento.
Tecnologia reforça o rastreamento patrimonial
O Judiciário utiliza sistemas integrados que cruzam informações sobre contas bancárias, veículos, imóveis e movimentações financeiras em poucos segundos. A ocultação de patrimônio tornou-se cada vez mais difícil.
Essa estrutura tecnológica sustenta o uso da suspensão de documentos como mecanismo de coerção legítima dentro da lei. O objetivo não é punir indiscriminadamente, mas garantir que decisões judiciais sejam cumpridas.
Quem enfrenta dificuldades financeiras deve buscar orientação o quanto antes. A Justiça tende a proteger quem demonstra transparência e disposição para negociar dentro das próprias possibilidades.
Fonte: PronaTEC
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