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| Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil |
Na noite desta terça-feira (17), o mangue do Recife atravessa o país e desemboca na Marquês de Sapucaí. A escola Acadêmicos do Grande Rio leva para a avenida o enredo “A Nação do Mangue”, unindo o Capibaribe ao Jardim Gramacho, em Duque de Caxias. Dois territórios marcados pela resistência. Dois lugares onde a margem virou manifesto.
O carnavalesco Antônio Gonzaga enxergou o que muita gente ainda não percebeu: mangue é metáfora de potência. E o Manguebeat foi isso — um grito com sotaque pernambucano que sacudiu os anos 1990.
Quando o mangue virou música
No Recife, bandas como Mundo Livre S/A e Chico Science & Nação Zumbi misturaram guitarras de heavy metal, levadas de reggae e o peso ancestral do maracatu. O resultado? O movimento Manguebeat — cultura de periferia, ciência popular, crítica social e ritmo.
O manifesto “Caranguejos com Cérebro”, escrito por Fred Zero Quatro em 1992, perguntava como tirar a cidade da depressão crônica. A resposta era direta: injetar energia na lama. Estimular a fertilidade cultural onde muitos só viam abandono.
O desfile da Grande Rio transforma essa tese em alegoria.
Mangue encontra Baixada
Duque de Caxias também é cercada por manguezais. Também conhece a exclusão. Também sabe que a arte é ferramenta de sobrevivência. É nesse paralelo que o enredo encontra sua força dramática: Recife e Baixada Fluminense conversam pelo tambor.
A bateria comandada por Mestre Fafá promete referências ao frevo, ao maracatu e às experimentações de Chico Science — figura central da revolução estética dos anos 1990. A fantasia da ala representa o bloco afro Lamento Negro, fundado com participação do próprio artista.
Não é apenas homenagem. É continuidade.
A disputa e o simbolismo
A Acadêmicos do Grande Rio é a penúltima escola a desfilar no último dia do Grupo Especial, ao lado de Paraíso do Tuiuti, Unidos de Vila Isabel e Acadêmicos do Salgueiro.
Mas aqui há algo além da disputa pelo título.
Quando o samba-enredo canta “Eu também sou caranguejo à beira do igarapé”, a mensagem é clara: identidade não é folclore, é força política. A lama vira cor. A periferia vira centro. O mangue vira passarela.
E talvez essa seja a maior vitória — quando a cultura do Nordeste não pede licença, ela ocupa.
Fonte: Movimento Econômico


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